Flor doTrigo

quarta-feira, setembro 28, 2005

Poemas da Paz






POEMAS DE PAZ



O verdadeiro amor dispensa manifestações exteriores que, infelizmente, não lhe conseguem traduzir a extensão nem a intensidade. Assemelha-se à paz: não tem posturas externas. Sente-se mas não se expressa.

*

Se podes movimentar recursos favoráveis ao vigor da intriga, querelar com a consciência ruminando aversão e animosidade, exorbitar nas questiúnculas sem valor para o mercado da maledicência, também podes amar, envolvendo o coração na doce paz da consciência reta, em nome das forças do bem latente no próprio espírito.

*

Disse o Senhor: “Busca a verdade e a verdade te fará livre. Ama o teu próximo como a ti mesmo, quanto eu próprio te tenho amado.”

Na verdade está a fórmula de libertação total e no amor o caminho para atingir a verdade.

A verdade, assim, é o amor que se sublinha e engrandece, fazendo com que o espírito que ama penetre no mistério sagrado da Criação, em paz.

*

Se a tua paz interior pode transformar-se em luz para os que vagueiam em sombra, sem alarde, conduzes o tesouro do amor, que até destaca como servidor por excelência, em nome da Vida.

***

(De “Poemas de Paz”, de Divaldo Pereira Franco, pelo Espírito Simbá)
posted by Semida at 10:28 AM 6 comments

quarta-feira, setembro 14, 2005

Mulata

Tomaz Viera da Cruz

Os teus defeitos são graça
que mais me prendem, querida...
Mistério de duas raças
que se encontram na vida.

E, no mato, em nostalgia,
num exílio carinhoso,
fizeram essa alegria
do teu olhar misterioso.

E deram forma de sonho,
em seu viver magoado,
a essa estilo risonho
do teu corpo bronzeado...

Que é bem e grácil maneira
em que a volúpia se anima,
- bailando duma fogueira
queimando quem se aproxima!

A tua boca dolente,
cicatriz de algum desgosto
é um vermelho poente
no lindo sol do teu rosto.

E os beijos que pronuncias
são palavras dolorosas
Teus beijos são tiranias
são como espinhos de rosas...

Que me embriagam, amantes,
no éter do seu perfume...
Teus beijos são navegantes
sobre as ondas do ciúme.

Os teus defeitos são graças
desse mistério profundo...
Saudade de duas raças
que se abraçaram no mundo!
posted by Semida at 10:34 PM 2 comments

domingo, setembro 11, 2005

Pe Antonio Vieira e companhia

Padre Antônio Vieira, seu mano Bernardo
e o "Boca do Inferno"
Gregório de Mattos e Guerra


Soneto
que Bernardo Vieira mandou para seu irmão, Padre Antônio Vieira:


Se queres ver do mundo um novo mapa,
oitenta anos atende desta cepa
por onde ramos a cobiça trepa,
e emaranhada faz do tronco lapa.

Morde com dentes por não ter mais papa;
com língua fere, com as mãos decepa;
soldado e povo livra da carepa,
que na tarde e manhã raivoso rapa;

olhos de água, as faces de tulipa;
cada pé de joanete uma garlopa;
com um só corpo de chalupa.

O bofe muito, e muito pouco a tripa,
é a minha musa; porque nela topa
em apa, epa, ipa, opa, upa.


Resposta
do Padre Antônio Vieira, pelos mesmos consoantes:


Vê, Bernardo, da eternidade o mapa
deixa do velho Adão a geral cepa,
pelo lenho da cruz ao Empírio trepa,
começando em Belém da pobre lapa.

Mais que rei pode ser, e mais que papa,
quem de seu coração vícios decepa;
que a grenha de Sansão toda é carepa,
e a guadanha da morte tudo rapa.

A dor da vida se é na cor tulipa,
de seus anos também se faz garlopa,
que os corta, como o mar corta a chalupa.

Não há mister que o ferro corte a tripa,
se na parte vital o fado topa,
em apa, epa, ipa, opa, upa.


Soneto
Por consoantes que me deram forçados

Gregório de Mattos e Guerra, o "Boca do Inferno", entra na conversa:


Neste mundo é mais rico o que mais rapa;
quem mais limpo se faz, tem mais carepa;
com sua língua, ao nobre o vil decepa;
o velhaco maior sempre tem capa.

Mostra o patife da nobreza o mapa;
quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;
quem menos falar pode, mais increpa;
quem dinheiro tiver, pode ser Papa.

A flor baixa se inculca por tulipa;
bengala hoje na mão, ontem garlopa;
mais isento se mostra o que mais chupa;

para a tropa do trapo vão a tripa,
e mais não digo; porque a Musa topa
em apa, em epa, em ipa, em opa, em upa.
posted by Semida at 3:53 PM 1 comments